A relação entre Moçambique e o Brasil reúne condições históricas, linguísticas, culturais e económicas que lhe conferem um potencial muito superior à actual dimensão das trocas comerciais entre os dois países. A língua portuguesa, os cerca de cinco décadas de relações diplomáticas e uma longa experiência de cooperação técnica constituem uma base diferenciadora que pode agora ser convertida numa agenda económica mais ambiciosa, orientada para comércio, investimento produtivo, transferência de tecnologia, industrialização e criação de emprego.
Os dados demonstram, contudo, que a relação económica bilateral ainda se encontra abaixo do seu potencial. Em 2024, o intercâmbio comercial entre os dois países atingiu cerca de 40,5 milhões de dólares norte-americanos, representando um crescimento de aproximadamente 27% em relação a 2023. As exportações brasileiras para Moçambique totalizaram cerca de 37,8 milhões de dólares, enquanto as importações brasileiras provenientes de Moçambique se situaram em aproximadamente 2,7 milhões de dólares.
Esta estrutura evidencia um desafio fundamental: a relação comercial continua assimétrica e pouco diversificada, com Moçambique ainda a ocupar uma posição relativamente limitada como fornecedor de produtos para o mercado brasileiro. Para a FUNDEC, o objectivo estratégico da nova etapa das relações bilaterais não deve ser simplesmente aumentar o volume das importações ou das exportações. Deve ser, sobretudo, transformar a relação comercial numa plataforma de investimento, produção local, integração produtiva e criação de emprego.
1. 2025: O Reforço Político e Institucional da Parceria
Um dos momentos mais importantes da recente aproximação entre os dois países ocorreu durante a visita do Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a Moçambique, em Novembro de 2025, quando, juntamente com o Presidente da República de Moçambique, Daniel Francisco Chapo, foram adoptados nove instrumentos de cooperação bilateral.
Os acordos e instrumentos abrangeram sectores estratégicos como:
- Aviação civil e reforço institucional do Instituto de Aviação Civil de Moçambique;
- Agricultura e desenvolvimento agroflorestal;
- Saúde, investigação e cooperação através da Fiocruz e do Instituto Nacional de Saúde;
- Educação e formação;
- Empreendedorismo e desenvolvimento das pequenas e médias empresas, envolvendo o SEBRAE e o IPEME;
- Promoção do investimento e exportações, através da aproximação entre a ApexBrasil e a APIEX;
- Cooperação diplomática e jurídica; e
- Programa de Cooperação para o Desenvolvimento Integrado de Moçambique.
A assinatura destes instrumentos representa um avanço institucional importante. O verdadeiro desafio passa agora da assinatura à execução. Os acordos devem ser traduzidos em projectos, investimentos, empresas, exportações, transferência tecnológica e resultados mensuráveis.
A cooperação bilateral já possui uma base relevante. Segundo dados da cooperação brasileira, foram implementadas 67 iniciativas de cooperação na última década, com cerca de 9,6 milhões de dólares em aportes brasileiros, abrangendo áreas como agricultura, saúde, formação profissional, educação, desenvolvimento urbano e segurança alimentar.
Para a FUNDEC, a nova fase deve concentrar-se num princípio essencial: cada instrumento de cooperação deve evoluir para resultados económicos concretos. É necessário estabelecer metas, projectos prioritários, calendários de execução e indicadores de impacto.
2. Agricultura e Agro-Indústria: A Maior Oportunidade de Transformação
Entre os sectores com maior potencial destaca-se a agricultura. O Brasil possui experiência reconhecida na agricultura tropical, mecanização, investigação científica, agro-processamento, desenvolvimento de cadeias de valor e extensão rural. Moçambique, por sua vez, dispõe de recursos agrícolas significativos, mas continua a enfrentar desafios relacionados com produtividade, irrigação, sementes, mecanização, financiamento, armazenamento e transformação industrial.
As recentes discussões entre os dois países colocaram no centro da cooperação o investimento em equipamentos agrários, agro-processamento, tecnologias e conhecimento científico, incluindo a experiência da EMBRAPA.
A oportunidade estratégica não está apenas em importar tecnologia brasileira. Está em adaptar essa tecnologia às condições moçambicanas, aumentar a produtividade e criar unidades de processamento capazes de transformar localmente produtos agrícolas. A FUNDEC considera que Moçambique deve procurar estruturar, com parceiros brasileiros, investimentos em cadeias de valor concretas, ligando produção, investigação, financiamento, logística e agro-indústria. O sucesso deverá ser medido não apenas pela quantidade produzida, mas pelo número de empresas criadas, postos de trabalho gerados, rendimento dos produtores e valor acrescentado que permanece na economia nacional.
3. Embraer, Aviação e Conectividade: Uma Nova Ponte Económica
A presença da Embraer na história recente da aviação moçambicana constitui outro elemento relevante da relação económica entre os dois países. A LAM – Linhas Aéreas de Moçambique incorporou aeronaves Embraer E190 na sua frota, e, mais recentemente, recebeu duas aeronaves Embraer E190 para reforço operacional, no contexto da reorganização da companhia.
Mais do que uma relação comercial ligada à aquisição de aeronaves, a FUNDEC entende que existe uma oportunidade para aprofundar a cooperação em áreas como formação aeronáutica, manutenção, desenvolvimento de competências, transporte regional e logística aérea.
Neste contexto, a possibilidade de criação de uma ligação aérea directa entre o São Paulo e Maputo deve ser analisada como uma oportunidade económica estratégica. Uma rota directa pode reduzir o tempo de deslocação, aproximar empresários, facilitar missões de investimento, promover o turismo, melhorar a mobilidade de técnicos e investidores e reduzir barreiras práticas à realização de negócios.
Mas a nova rota, por si só, não será suficiente. Para gerar impacto económico, deverá ser acompanhada por uma verdadeira agenda empresarial, incluindo:
- Missões empresariais regulares;
- Fóruns de investimento Moçambique–Brasil;
- Programas de promoção comercial;
- Encontros sectoriais entre empresas;
- Mecanismos de facilitação de investimentos; e
- Promoção de Moçambique como plataforma para a SADC.
Moçambique deve ser apresentado às empresas brasileiras não apenas como um mercado nacional, mas como uma porta de entrada para a África Austral, aproveitando os corredores de Maputo, Beira e Nacala e a integração regional.
4. Do Comércio ao Investimento Produtivo
A FUNDEC defende que a próxima etapa da relação Moçambique–Brasil deve privilegiar sectores com maior capacidade de gerar transformação económica e emprego, nomeadamente agricultura e agro-indústria, energia, indústria farmacêutica, logística, infra-estruturas, tecnologia, construção, formação profissional e pequenas e médias empresas.
O Brasil pode contribuir com capital, tecnologia, experiência empresarial e capacidade industrial. Moçambique deve procurar converter esses factores em capacidade produtiva instalada no território nacional.
O objectivo não deve ser apenas atrair empresas brasileiras, mas atrair empresas que:
- Produzam localmente;
- Criem emprego para moçambicanos;
- Formem quadros e técnicos nacionais;
- Integrem fornecedores locais;
- Transfiram tecnologia;
- Utilizem matérias-primas nacionais; e
- Produzam também para os mercados regionais.
A qualidade do investimento deve, portanto, ser tão importante quanto a sua quantidade.
5. Uma Agenda Económica com Metas Mensuráveis
Com base na actual dimensão do comércio bilateral, a FUNDEC considera possível estabelecer uma trajectória mais ambiciosa para a próxima década. Num horizonte de curto prazo, entre um e dois anos, a aproximação empresarial e a nova dinâmica institucional poderiam contribuir para elevar o intercâmbio comercial bilateral para uma faixa entre 75 e 100 milhões de dólares anuais.
Num horizonte de médio prazo, entre três e cinco anos, uma estratégia orientada para investimento produtivo, agro-indústria e exportações poderia permitir alcançar entre 150 e 250 milhões de dólares anuais em comércio bilateral.
Num horizonte de longo prazo, entre cinco e dez anos, Moçambique e Brasil poderiam trabalhar para construir uma relação económica capaz de mobilizar mais de 500 milhões de dólares anuais em comércio e investimento produtivo.
Estes valores não representam previsões automáticas, mas sim referências estratégicas indicativas. A sua concretização dependerá da implementação dos acordos, do ambiente de negócios, da mobilização do investimento privado e da capacidade dos dois países de transformar oportunidades em projectos concretos.
6. Da Proximidade Histórica à Transformação Económica
Moçambique e Brasil dispõem hoje de uma oportunidade para elevar a sua relação bilateral a um novo patamar. Os acordos assinados pelos dois Presidentes, a intensificação da cooperação técnica, o interesse empresarial brasileiro, a presença do Brasil em iniciativas económicas em Moçambique, a experiência da Embraer e a perspectiva de uma nova ligação aérea directa constituem elementos de uma mesma oportunidade estratégica.
O desafio central é garantir que esta aproximação produza resultados económicos mensuráveis.
Para a FUNDEC, a relação Moçambique–Brasil deve evoluir de uma lógica predominantemente baseada na cooperação e comércio para uma parceria orientada para investimento, produção, industrialização e emprego.
O sucesso desta nova etapa não deverá ser medido pelo número de acordos assinados ou encontros realizados. Deverá ser medido pelo volume de investimento produtivo mobilizado, pelo crescimento das exportações, pelo número de empresas instaladas, pelos empregos criados, pela transferência de tecnologia e pela capacidade produtiva construída em Moçambique.
“O potencial histórico existe. A proximidade institucional está a ser reforçada. A conectividade poderá ganhar uma nova dimensão. O desafio agora é transformar esta oportunidade numa agenda económica concreta, mensurável e capaz de gerar resultados para os dois países”.
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