Por: Agostinho Vuma
Há expressões que sobrevivem ao tempo porque encerram uma sabedoria que ultrapassa as palavras. Uma delas foi transmitida pela mãe de Eduardo Chivambo Mondlane, quando aconselhou o jovem que viria a tornar-se arquitecto da nacionalidade moçambicana a deixar a aldeia e ir aprender “o feitiço dos brancos”.
À primeira vista, a expressão pode parecer estranha ou até controversa. Contudo, como procuro demonstrar na minha obra “Liderança: Legado de uma Caminhada”, lançada em 2025 e disponível nas principais livrarias do país, o chamado “feitiço do homem branco” nunca significou submissão cultural nem admiração cega pelo colonizador. Tratava-se, antes, de uma metáfora poderosa para designar o domínio do conhecimento, da ciência, da técnica, da organização social, da disciplina e da capacidade de transformar recursos em prosperidade.
A mãe de Eduardo Mondlane, oriunda de um contexto profundamente marcado pela tradição oral, havia compreendido uma verdade essencial: os povos que dominam a ciência e o conhecimento moldam o seu próprio destino. O seu conselho não era um convite à alienação; era um chamamento à emancipação.
Décadas mais tarde, Joaquim Alberto Chissano recuperaria essa mesma ideia, ao afirmar, num simpósio dedicado a Amílcar Cabral, que os africanos deveriam aprender e aplicar “o feitiço dos brancos” à sua própria realidade. Não se tratava de copiar modelos externos, mas de absorver os instrumentos universais do progresso e colocá-los ao serviço da liberdade, da dignidade e do desenvolvimento nacional.
Talvez seja precisamente aqui que reside uma das mais profundas continuidades da história moçambicana.
Muito antes dos grandes debates económicos contemporâneos, muito antes das teorias sobre industrialização, competitividade ou transformação estrutural, homens e mulheres das nossas aldeias já sonhavam com um país capaz de produzir riqueza, gerar emprego e garantir dignidade aos seus filhos. Muitos deles eram analfabetos. Nunca frequentaram uma universidade nem tiveram acesso às bibliotecas do mundo. Porém, possuíam uma extraordinária inteligência histórica: percebiam que existia, algures, um segredo capaz de converter pobreza em prosperidade e dependência em autodeterminação.
O “feitiço” era, afinal, o conhecimento. Era a escola. Era a engenharia. Era a medicina. Era a agricultura moderna.
Era a capacidade de construir estradas, fábricas, portos, universidades e centros de investigação.
Era a disciplina institucional. Era a cultura do trabalho. Era, sobretudo, a convicção de que nenhum povo alcança a prosperidade vivendo exclusivamente da memória das suas conquistas políticas.
Cinco décadas depois da Independência Nacional, Moçambique encontra-se perante aquilo que talvez seja a sua maior encruzilhada histórica: transformar a independência política em independência económica.
O próprio Presidente da República, Daniel Chapo, tem insistido que a actual geração está diante de uma nova missão nacional: consolidar a soberania económica através da produção, da produtividade e da valorização do conhecimento.
Mas a ideia de uma segunda independência não nasceu hoje. Ela percorre silenciosamente a nossa história colectiva.
Quando a mãe de Eduardo Mondlane o exortou a aprender o “feitiço dos homens brancos”, não estava apenas a aconselhar o filho a estudar. Estava, ainda que de forma intuitiva, a lançar as bases de um projecto nacional que permanecia por concretizar: a construção de um povo intelectualmente livre, economicamente autónomo e capaz de competir no mundo em condições de igualdade.
Esse sonho atravessou a luta de libertação, inspirou a geração da independência, acompanhou os anos difíceis da reconstrução nacional e chega agora à nossa época sob novas formas e novos desafios.
É neste contexto que o actual debate sobre o chamado “milagre económico moçambicano” não pode ser reduzido a slogans políticos nem a programas governamentais circunstanciais. O milagre económico não acontecerá por decreto. Não nascerá apenas dos nossos recursos minerais, do gás natural ou da nossa posição geográfica privilegiada. O verdadeiro milagre será a transformação profunda da mentalidade colectiva.
Nenhum país se desenvolve exportando apenas matéria-prima e importando conhecimento. Nenhuma economia alcança a prosperidade se as suas universidades produzirem diplomas, mas não ciência; se as suas escolas formarem consumidores, mas não inovadores; se os seus jovens procurarem emprego sem antes procurarem competência.
Talvez a nossa geração tenha recebido um privilégio singular que os nossos avós não tiveram: já não precisamos de descobrir onde está o “feitiço”. Sabemos exactamente onde ele reside. Está nos laboratórios, nas bibliotecas, nas oficinas, nos centros tecnológicos, nos campos agrícolas modernizados, nas empresas competitivas, nas universidades e na ética do trabalho.
A questão decisiva é outra: teremos nós a coragem de assumir a responsabilidade histórica de materializar o sonho que atravessou gerações?
Daniel Chapo e a ressurreição de um sonho antigo
Recentemente, uma obra literária apresentada ao público moçambicano descreveu o Presidente Daniel Chapo como um homem providencial, um “enviado de Deus” para governar Moçambique. Como seria expectável numa sociedade plural, secular e democrática, tal formulação pode suscitar interpretações diversas e, não raras vezes, controversas.
Todavia, a pertinência dessa referência talvez não resida numa leitura estritamente religiosa ou mística do termo. O verdadeiro alcance da expressão poderá encontrar-se num plano mais profundo: o da consciência histórica dos povos.
Ao longo da História, as sociedades tendem a reconhecer determinadas lideranças como intérpretes privilegiados das angústias colectivas e dos grandes desafios do seu tempo. Não porque lhes atribuam poderes sobrenaturais, mas porque identificam nelas a capacidade singular de traduzir aspirações acumuladas ao longo de gerações e transformá-las em programas concretos de mobilização nacional.
Nesta perspectiva, a ideia de uma “missão” atribuída ao Presidente Daniel Chapo não deve ser entendida como a consagração de uma personalidade acima das instituições ou da própria nação. Pelo contrário, ela pode ser interpretada como a emergência de uma liderança que recupera e reorganiza um sonho muito mais antigo do que qualquer governo ou ciclo político: o sonho da autodeterminação económica de Moçambique.
Quando o Presidente desafia os moçambicanos a trabalharem mais, a produzirem mais, a dominarem a ciência, a tecnologia e os mecanismos da economia moderna, talvez esteja, consciente ou inconscientemente, a dar voz ao mesmo anseio que animou os nossos ancestrais, os libertadores e as gerações que sonharam com um país capaz de caminhar pelos seus próprios meios.
Por isso, entender Daniel Chapo como um “enviado” não precisa de significar a atribuição de uma natureza sagrada à sua liderança. Pode significar, simplesmente, reconhecer nele a capacidade de fazer ressurgir uma ambição colectiva, profundamente enraizada na alma nacional: a construção de um Moçambique próspero, seguro, soberano e economicamente independente.
A dimensão profética da liderança: uma construção colectiva da moçambicanidade
Importa, igualmente, clarificar a utilização do termo “profético”, frequentemente associado ao domínio religioso, mas que possui uma acepção mais ampla no pensamento político e histórico.
Uma liderança profética não é necessariamente aquela que reivindica revelações divinas ou poderes espirituais extraordinários. É, sobretudo, a liderança capaz de interpretar os sinais do seu tempo, compreender os riscos do presente e antecipar os caminhos do futuro. É a capacidade de identificar desafios históricos, mobilizar vontades e convocar uma nação para tarefas que transcendem o horizonte imediato.
Foi profético, neste sentido, o conselho da mãe de Eduardo Mondlane para que o jovem saísse da aldeia e aprendesse o “feitiço dos homens brancos”. Foi profética a visão de Mondlane sobre a centralidade da educação e do conhecimento na construção da nação moçambicana.
Samora Moisés Machel, por sua vez, acrescentou uma dimensão revolucionária a esse ideal, ao compreender que a independência política só seria sustentável se fosse acompanhada pela emancipação económica, intelectual e cultural dos moçambicanos. A sua insistência na construção do Homem Novo, tantas vezes incompreendida ou reduzida à retórica do período pós-independência, traduzia, em essência, a ambição de formar cidadãos livres da resignação, da dependência e das amarras mentais herdadas do colonialismo.
Quando Samora proclamava que “a libertação da terra e dos homens” exigia uma profunda transformação das consciências, estava, no fundo, a antecipar um desafio que permanece actual: o de construir uma sociedade capaz de converter a soberania política em capacidade produtiva, inovação científica e prosperidade partilhada. O seu apelo permanente ao trabalho, à disciplina, à educação e ao patriotismo económico representou uma das primeiras formulações moçambicanas daquilo a que hoje chamamos independência económica.
Décadas mais tarde, Joaquim Alberto Chissano recuperaria essa mesma inquietação histórica, defendendo a necessidade de os africanos se apropriarem do “feitiço dos brancos”, entendido não como submissão cultural, mas como domínio da ciência, da técnica e da organização económica moderna.
Mas esta longa caminhada não se esgota aí.
Armando Emílio Guebuza procurou despertar nos moçambicanos uma nova consciência sobre a sua capacidade de produzir riqueza e de ocupar, sem complexos, o seu lugar no concerto das nações. O seu apelo permanente à elevação da autoestima nacional e à necessidade de os cidadãos “não terem medo de criar riqueza para si e para os seus” representou uma importante ruptura psicológica com décadas de resignação e dependência.
Filipe Jacinto Nyusi, por sua vez, acrescentou uma dimensão particularmente relevante a este edifício conceptual, ao defender um nacionalismo inclusivo e agregador, assente na convicção de que “as boas ideias não têm cores partidárias”. Numa época marcada por profundas transformações económicas e sociais, esta visão recorda-nos que os grandes desígnios nacionais apenas podem ser alcançados quando a inteligência colectiva da nação se sobrepõe às diferenças políticas, regionais ou ideológicas.
É neste quadro mais amplo que o actual chamamento do Presidente Daniel Chapo à independência económica, à produtividade, ao trabalho e à valorização do conhecimento deve ser compreendido. A sua visão pode ser entendida como a continuação de uma aspiração antiga e transversal, alimentada por sucessivas gerações de moçambicanos que sonharam com um país economicamente soberano, socialmente justo e plenamente capaz de transformar os seus recursos em prosperidade partilhada.
Talvez seja neste sentido — histórico e não teológico — que alguns interpretem a ideia de uma missão especial associada à actual liderança: não como a exaltação de um homem acima das instituições, mas como o reconhecimento de uma capacidade singular para interpretar o espírito do tempo e reavivar um sonho colectivo que atravessa gerações.
A verdadeira profecia política não consiste em prever o futuro; consiste em reconhecê-lo antes dos outros e em mobilizar a sociedade para o construir.
Contudo, importa sublinhar que a batalha pela independência económica não pertence exclusivamente ao Presidente da República, nem a qualquer partido ou geração em particular. Ela pertence ao pescador de Angoche, ao camponês de Chókwè, ao empresário da Beira, ao mineiro de Tete, ao estudante de Lichinga e ao emigrante moçambicano espalhado pelo mundo. Daí a pertinência do projecto presidencial do Diálogo Nacional Inclusivo em curso.
Porque o milagre económico moçambicano não será obra de um indivíduo providencial. Será, antes, a culminação de um sonho antigo, transmitido silenciosamente de geração em geração, desde os nossos ancestrais até aos líderes da modernidade: a convicção de que Moçambique possui o direito inalienável de transformar o seu potencial em riqueza, dignidade e prosperidade para todos os seus filhos.
Se os nossos avós lutaram pela sobrevivência, se os libertadores lutaram pela independência política e se os estadistas da República procuraram consolidar as instituições do Estado, então à nossa geração cabe a tarefa talvez mais difícil e mais nobre: conquistar a independência económica.
No fundo, aquilo a que outrora chamaram “o feitiço do homem branco” talvez nunca tenha sido outra coisa senão isto: a capacidade dos povos de acreditarem em si próprios, de aprenderem, de inovarem e de construírem, com as próprias mãos, o seu destino colectivo.
Porque o verdadeiro milagre económico moçambicano não consistirá em descobrir algo novo. Consistirá, antes, em cumprir uma promessa antiga — a promessa de que o conhecimento, o trabalho, a ciência e a competência seriam, um dia, os instrumentos através dos quais Moçambique realizaria, finalmente, o sonho dos seus ancestrais.
E talvez seja esta a maior responsabilidade histórica da nossa geração: provar que o “feitiço” nunca pertenceu a um povo específico, mas à humanidade inteira — e que chegou a vez de Moçambique apropriar-se dele, definitivamente.