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RELATÓRIO TÉCNICO: MERCADO DE COMBUSTÍVEIS, ESCASSEZ DE DIVISAS, SISTEMA BANCÁRIO E IMPACTOS MACROECONÓMICOS EM MOÇAMBIQUE (2019 – MAIO DE 2026)

A Fundação para a Competitividade Empresarial de Moçambique  FUNDEC  realizou na manhã desta quinta-feira A Fundação para a Competitividade Empresarial de Moçambique  FUNDEC  realizou na manhã desta quinta-feira a apresentação do Relatório Técnico: Mercado de Combustíveis, Escassez de Divisas, Sistema Bancário e Impactos Macroeconómicos em Moçambique (2019 – Maio de 2026). O estudo conclui que a escassez registada no país não foi física, mas sim financeira e sistémica.

A crise invisível dos combustíveis: quando a falta de dólares trava a economia

Entre 2019 e Maio de 2026, Moçambique viveu uma das fases mais complexas da sua história económica recente. O aumento contínuo dos preços dos combustíveis, associado a episódios recorrentes de escassez, expôs fragilidades que vão muito além da subida internacional do preço do petróleo. O Relatório Técnico da FUNDEC conclui que o país enfrentou uma crise financeira e cambial instalada dentro do próprio sistema económico, não uma crise física de abastecimento.

1. O paradoxo: exportar biliões e faltar dólares

O estudo identifica uma contradição estrutural. Moçambique exporta volumes elevados em gás, carvão, alumínio e energia. Mesmo assim, regista escassez efectiva de divisas para importar bens estratégicos como combustíveis. A razão: grande parte das receitas dos megaprojectos não circula no sistema financeiro doméstico. Amortizações externas, repatriamento de lucros, estruturas offshore e compromissos internacionais drenam a moeda estrangeira antes que ela entre na economia real.

Resultado: “O país exporta biliões de dólares, mas continua a registar escassez efectiva de divisas para financiar importações estratégicas”. Quando a liquidez cambial se deteriorou, o aumento dos preços internos deixou de ser suficiente para garantir abastecimento regular. O problema deixou de ser comercial e transformou-se em crise financeira, operacional e institucional.

2. Seis vulnerabilidades que travaram o abastecimento

O relatório demonstra que a escassez resultou da convergência simultânea de seis factores estruturais:

  1. Dependência extrema de importações: 100% dos combustíveis refinados vêm de fora, com pagamento imediato em dólares.
  2. Estrutura produtiva pouco diversificada: Baixa geração líquida de divisas fora dos megaprojectos.
  3. Concentração cambial no sistema bancário: Os bancos comerciais enfrentaram limitações severas de liquidez em moeda externa.
  4. Modelo centralizado via IMOPETRO: A dependência de cartas de crédito e linhas de trade finance tornou o sistema vulnerável à indisponibilidade imediata de dólares.
  5. Pressão cambial e sistema financeiro frágil: Limitações operacionais dos bancos, pressão cambial e insuficiente capacidade de geração de liquidez internacional.
  6. Arbitragem regional: Preços relativamente baixos em Moçambique incentivaram desvios transfronteiriços.

O combustível existia no mercado global. Navios e fornecedores existiam. O bloqueio foi financeiro: o sistema nacional não conseguia garantir velocidade de financiamento e liquidação internacional.

3. Efeito dominó: do gasóleo à inflação e ao crédito

Os combustíveis são insumo transversal. Quando sobem, sobem transporte, logística, agricultura, indústria e energia indirecta. Entre 2022-2023, a inflação chegou a 10,23%. Em resposta, o Banco de Moçambique elevou a taxa MIMO para 17,50%.

A sequência foi destrutiva: combustíveis elevados aumentaram inflação → inflação levou ao aumento dos juros → juros elevados reduziram investimento, consumo e crescimento. Sectores como transportes, agricultura, comércio e construção foram atingidos duplamente: custo de combustível mais alto e crédito bancário mais caro.

4. A lição de 2026: recursos naturais não garantem estabilidade

A principal conclusão do relatório é contundente: “Possuir grandes recursos naturais não garante automaticamente estabilidade económica”. O verdadeiro desafio é construir uma economia mais diversificada, financeiramente resiliente, industrialmente integrada e institucionalmente robusta.

Para reduzir vulnerabilidades, o estudo aponta reformas estruturais: fortalecer geração efectiva de divisas, diversificar exportações, aprofundar o mercado cambial, melhorar eficiência logística, reforçar reservas estratégicas e acelerar a industrialização nacional. A criação de capacidade local de refinação é destacada como passo estratégico para reduzir dependência externa, aliviar pressão sobre reservas cambiais e aumentar segurança energética.

Conclusão

Para a FUNDEC, a crise dos combustíveis de 2026 deve ser encarada como ponto de inflexão estratégico. O relatório reforça que o desafio de Moçambique passa por redefinir fundamentos económicos para enfrentar choques futuros com maior estabilidade, previsibilidade e segurança macroeconómica.

O diagnóstico está feito: a escassez foi sistémica. O próximo passo é transformar este diagnóstico em reformas executáveis.

A FUNDEC disponibiliza o relatório completo para consulta pública

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