O recente anúncio do Banco de Moçambique, indicando que o Investimento Directo Estrangeiro (IDE) atingiu cerca de 5,6 mil milhões de dólares em 2025, representando um crescimento de 60,2%, constitui um dos mais relevantes marcos económicos registados pelo país nos últimos anos. Este desempenho confirma o reposicionamento de Moçambique como um importante destino de capital internacional, sobretudo no contexto da indústria extractiva, gás natural liquefeito, mineração e grandes projectos energéticos.
A magnitude destes números revela confiança dos investidores internacionais no potencial económico nacional, particularmente nas perspectivas associadas aos projectos da Bacia do Rovuma. Contudo, para além do entusiasmo que estes indicadores naturalmente geram, importa fazer uma reflexão mais profunda sobre o verdadeiro significado económico deste crescimento e, sobretudo, sobre os seus efeitos reais na estrutura produtiva nacional.
A análise da FUNDEC demonstra que Moçambique continua a enfrentar um desafio estrutural importante, apesar do aumento significativo dos fluxos de investimento estrangeiro, os benefícios económicos internos ainda permanecem relativamente concentrados, com reduzida capacidade de transformação efectiva do tecido empresarial nacional, ou seja, o fluxo de investimento estrangeiro para alem de ser concentrado, gera enclave económico no seio dos grandes projectos, com fraca ligação aos outros sectores estruturantes da economia, gerando uma economia de duas velocidades. E este fenómeno de economia de duas velocidades, percebe-se quando o fluxos de investimento estrangeiro concentra-se em grandes projectos e sectores como indústria transformadora, agricultura e agro – indústria, transporte e logística, não recebem investimento na mesma magnitude e pouco estabelecem relação entre si.
Os próprios dados do Banco de Moçambique mostram que mais de 90% do IDE continua direccionado para a indústria extractiva. Isto significa que o crescimento económico continua fortemente dependente de sectores intensivos em capital, mas com limitada capacidade de absorção massiva de emprego, reduzida integração das pequenas e médias empresas nacionais e baixo nível de encadeamento produtivo interno.
As métricas produzidas pela FUNDEC no âmbito do Índice de Competitividade Empresarial de Moçambique (ICEM 2024–2025) revelam que persistem desafios estruturais relevantes no ambiente económico nacional, nomeadamente no acesso ao financiamento, custos de contexto, produtividade empresarial, eficiência logística, capacidade tecnológica e integração das PME nas grandes cadeias de valor.
Ao mesmo tempo, os resultados do Rating Empresarial Financeiro (REF 2025) mostram que muitas empresas nacionais ainda apresentam fragilidades significativas em termos de capitalização, robustez financeira, capacidade de compliance, governação corporativa e acesso a instrumentos estruturados de financiamento.
Isto significa que existe actualmente uma assimetria evidente entre o crescimento macroeconómico associado aos grandes investimentos e a capacidade efectiva das empresas moçambicanas beneficiarem desse ciclo económico.
Moçambique vive hoje uma oportunidade histórica. Poucos países africanos possuem actualmente o potencial de mobilização de capital externo que o país apresenta, particularmente nos sectores do gás natural, energia, logística, corredores de desenvolvimento e mineração. Contudo, a experiência internacional demonstra que recursos naturais, por si só, não garantem desenvolvimento sustentável.
A verdadeira transformação económica depende da capacidade do país converter investimento estrangeiro em industrialização, produtividade, inovação, emprego qualificado e fortalecimento do sector privado nacional.
É precisamente aqui que a FUNDEC entende existir uma necessidade urgente de aprofundar políticas de conteúdo local, integração produtiva, capacitação empresarial, financiamento estruturado às PME e desenvolvimento de cadeias de valor nacionais.
Os grandes projectos liderados por empresas como a TotalEnergies, ExxonMobil e Eni devem representar não apenas fontes de receitas fiscais e exportações, mas igualmente plataformas de transformação económica nacional, capazes de dinamizar fornecedores locais, estimular indústria nacional, desenvolver serviços especializados e criar novas oportunidades empresariais.
Para tal, torna-se fundamental investir fortemente em inteligência económica aplicada, monitoria baseada em evidência, desenvolvimento de métricas nacionais de competitividade e construção de instrumentos permanentes de avaliação económica.
A FUNDEC acredita que Moçambique precisa evoluir de uma economia predominantemente extractiva para uma economia produtiva, integrada e competitiva. Isso exige maior articulação entre Governo, sector privado, sistema financeiro, universidades, parceiros de cooperação e instituições técnicas nacionais.
Neste contexto, a FUNDEC pretende continuar a afirmar-se como uma plataforma nacional de produção de conhecimento económico aplicado, desenvolvimento de indicadores estratégicos e promoção de soluções orientadas para o fortalecimento da competitividade empresarial e transformação estrutural da economia.
O actual momento económico do país não deve ser analisado apenas como um período de entrada massiva de capitais externos. Deve ser encarado como uma oportunidade histórica para construir uma nova arquitectura económica nacional, mais resiliente, diversificada e inclusiva.
Porque, no final, o verdadeiro desafio de Moçambique não será apenas atrair investimento.
O verdadeiro desafio será transformar esse investimento em desenvolvimento económico sustentável, empregos produtivos e prosperidade nacional duradoura.