A independência económica precisa de números
Por: Agostinho Vuma
Há palavras que inspiram. Há palavras que mobilizam. Mas chega um momento em que precisam de ser medidas.
Independência económica é uma delas.
No encerramento da 11.ª Conferência Nacional de Quadros da FRELIMO, o Presidente da República, Daniel Chapo, definiu uma ambição inequívoca: “Renovar Moçambique Rumo à Independência Económica”.
E explicou o seu alcance: para Chapo, a verdadeira independência só estará plenamente realizada quando a independência política for acompanhada por desenvolvimento capaz de assegurar prosperidade, justiça social, dignidade e felicidade aos moçambicanos.
A pergunta seguinte é inevitável:
Como saberemos que estamos a chegar lá?
Porque uma visão sem indicadores corre o risco de permanecer eternamente uma aspiração. Dar números ao sonho
A independência política teve uma data: 25 de Junho de 1975.
A independência económica será provavelmente um processo. Precisamos, por isso, de medir o caminho.
Quanto do que consumimos conseguimos produzir? Quanto do que extraímos transformamos no país? Quanto da riqueza dos grandes projectos permanece na economia nacional? Quantas empresas moçambicanas entram nas respectivas cadeias de valor? Quantos empregos produtivos criamos? Quanto aumentou a produtividade agrícola? Quanto do crescimento chegou efectivamente às famílias?
Estas perguntas poderiam integrar uma espécie de painel nacional da independência económica.
Porque não basta saber quanto crescemos. Precisamos de saber como crescemos, quem participou e quem beneficiou desse crescimento.
O PIB não chega
Podemos crescer e continuar dependentes.
Podemos exportar milhares de milhões e importar produtos que poderíamos produzir. Receber enormes investimentos e manter poucas empresas nacionais nas respectivas cadeias produtivas. Descobrir novas riquezas e continuar com milhares de jovens sem oportunidades.
O PIB é fundamental, mas não basta.
O próprio Presidente Chapo estabeleceu, em Chimoio, uma métrica mais próxima do cidadão ao afirmar que “ouvir e auscultar só têm valor quando produzem mudança”.
Transportada para a economia, a ideia é poderosa:
crescer só terá pleno valor quando o crescimento produzir mudança.
Na empresa. Na machamba. No emprego. No rendimento. Na mesa da família.
Quanto de Moçambique existe na economia de Moçambique?
Talvez esta seja uma das perguntas mais desconfortáveis que precisamos de fazer.
Quando nasce um grande projecto, quantas empresas nacionais fornecem bens e serviços? Quando exportamos recursos, quanto valor acrescentado fica no país? Quando realizamos grandes investimentos, quanto desse dinheiro desenvolve capacidade empresarial nacional?
E quando importamos aquilo que poderíamos competitivamente produzir, quantos empregos estamos indirectamente a exportar?
Independência económica não significa fechar Moçambique ao mundo.
Significa entrar no mundo com maior capacidade de produzir, competir, negociar e beneficiar.
Não precisamos de uma economia isolada. Precisamos de uma economia menos vulnerável.
Medir também a prosperidade
Daniel Chapo afirmou igualmente em Chimoio que o cidadão moçambicano tem o direito de prosperar e de ficar rico através do trabalho lícito, honesto, íntegro e produtivo.
Esta afirmação presidencial sugere outra medida essencial: mobilidade social.
Quantos moçambicanos conseguem melhorar significativamente de vida através do trabalho? Quantas pequenas empresas se tornam médias? Quantas famílias conseguem poupar, investir e construir património?
Uma economia transformadora não deve apenas produzir novos ricos.
Deve produzir milhões de possibilidades de prosperar.
Talvez o verdadeiro indicador seja este: nascer pobre deixar progressivamente de determinar onde alguém terminará a vida.
O Estado também precisa de medir-se
Daniel Chapo deixou outra orientação importante: fazer diferente significa reconhecer aquilo que não funciona, corrigir o que funciona mal e abandonar aquilo que deixou de produzir resultados.
Mas como abandonar o que não produz resultados se não os medirmos?
Cada grande programa público deveria responder a perguntas elementares: quanto custou? O que prometeu? O que realizou? Quem beneficiou? Que impacto produziu? Deve continuar?
O dinheiro público não pode financiar eternamente boas intenções. Deve financiar resultados públicos.
Um marcador nacional
Talvez tenha chegado o momento de considerar um Índice Nacional de Independência Económica.
Não para criar mais uma estatística, mas para reunir indicadores essenciais — produção nacional, produtividade, industrialização, emprego, exportações com valor acrescentado, conteúdo local, capacidade empresarial, rendimento das famílias e mobilidade social — e responder anualmente a uma pergunta:
Estamos economicamente mais independentes do que há um ano?
Seria transformar visão em trajectória e discurso em prestação de contas.
O milagre que pode ser contado
No primeiro artigo defendemos que o Milagre Económico Moçambicano não cairá do céu.
No segundo, que o Novo Pacto com o Povo exige responsabilidades do Estado, cidadãos, dirigentes, empresários e gerações.
Chegamos à conclusão:
o milagre precisa de poder ser contado.
Não apenas em milhões de dólares, mas em empregos criados, empresas que cresceram, campos mais produtivos, produtos transformados, famílias que venceram a pobreza e jovens que encontraram futuro no próprio país.
Daniel Chapo colocou a independência económica no horizonte e propôs um Novo Pacto com o Povo.
A História fará a pergunta seguinte:
Conseguimos transformar esse pacto em resultados?
Porque a independência económica talvez nunca seja proclamada numa praça nem tenha uma data no calendário.
Será reconhecida quando milhões de moçambicanos puderem olhar para as suas vidas e perceber que Moçambique prosperou — e eles prosperaram com Moçambique.
Nesse dia, o Milagre Económico Moçambicano deixará de ser uma esperança.
Terá acontecido.