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Milagre Económico Moçambicano

E SE O PRÓXIMO GRANDE PROJECTO DE MOÇAMBIQUE FOSSE O PRÓPRIO MOÇAMBICANO?

Por: Agostinho Vuma

Ao longo das últimas décadas, sucessivos programas de governação em Moçambique colocaram, compreensivelmente, grande ênfase na construção de estradas, pontes, barragens, portos, escolas, hospitais e outras infra-estruturas indispensáveis ao desenvolvimento. O país precisava delas e continuará a precisar. Mas talvez tenha chegado o momento de acrescentarmos uma nova prioridade — e colocá-la acima de todas as outras: construir o moçambicano capaz de construir, utilizar, preservar e transformar tudo o que construímos.

Porque uma estrada pode aproximar territórios, mas são pessoas que transformam essa ligação em economia. Uma escola pode receber milhares de alunos, mas são professores preparados que produzem conhecimento. Um hospital pode ter paredes modernas, mas são profissionais competentes e humanizados que salvam vidas. Uma fábrica pode possuir tecnologia de ponta, mas precisa de técnicos capazes de operá-la, mantê-la e melhorá-la.

Talvez seja esta a mudança de paradigma que o actual ciclo de desenvolvimento exige: passarmos da obsessão exclusiva pela infra-estrutura física para a centralidade da infra-estrutura humana.
Falamos de industrialização, digitalização, produtividade, emprego, independência económica e até da possibilidade de um “Milagre Moçambicano”. Mas há uma pergunta anterior a todas estas ambições: que moçambicano será capaz de realizar esse milagre?


Nenhum país consegue ser muito maior do que a qualidade humana, intelectual, profissional e ética dos seus cidadãos.

Precisamos, por isso, de produzir uma nova riqueza: competência.

Um país transforma-se quando o professor entende que está a formar a próxima geração; quando o funcionário público percebe que o cidadão não lhe pede um favor, mas um serviço; quando o empresário compreende que prosperidade duradoura nasce da capacidade de competir; quando o trabalhador percebe que produtividade também é patriotismo; quando o jovem deixa de perguntar apenas “onde posso conseguir emprego?” e começa igualmente a perguntar: “que problema sou capaz de resolver?”


É aqui que pode começar o verdadeiro Milagre Moçambicano.

Precisamos de colocar no centro das políticas públicas uma pergunta aparentemente simples:

Não apenas escolarizá-lo. Transformá-lo.


Transformar conhecimento em competência. Formação em produtividade. Diploma em capacidade. Juventude em inovação. Experiência em mentoria. Autoridade em serviço. Ambição em iniciativa.

Patriotismo em comportamento económico.


Talvez precisemos, inclusive, de rever a nossa definição de infra-estrutura. Uma criança que aprende matemática, ciência, tecnologia e pensamento crítico é uma infra-estrutura do futuro. Um jovem tecnicamente qualificado é uma infra-estrutura produtiva. Um investigador que produz soluções é uma infra-estrutura de soberania. Um funcionário competente é uma infra-estrutura institucional. Um empresário inovador é uma infra-estrutura económica.

Também se constroem países construindo pessoas.

E talvez devamos reconhecer outra fragilidade: durante demasiado tempo, habituámo-nos a medir o sucesso pela posição ocupada e não necessariamente pelo valor produzido. Queremos ser chefes antes de sermos especialistas. Procuramos títulos antes de competências. Desejamos reconhecimento antes de resultados.

O Milagre Moçambicano exigirá inverter essa equação.


Precisamos de voltar a prestigiar quem sabe fazer: o electricista extraordinário, o mecânico competente, o agricultor produtivo, o programador brilhante, o professor dedicado, o enfermeiro humanizado, o investigador rigoroso, o funcionário eficiente e o empresário que começa pequeno, cresce pelo mérito e cria emprego.

Uma sociedade que respeita o gabinete e despreza a oficina dificilmente constrói uma economia produtiva.


Precisamos igualmente de transformar a excelência numa aspiração nacional. Não podemos normalizar o “mais ou menos”: o documento que demora desnecessariamente; a obra que precisa de reparação pouco depois de inaugurada; a aula que não foi preparada; o atendimento sem humanidade; o compromisso que não é cumprido; a reunião que começa sempre tarde; a responsabilidade que ninguém assume.


A independência económica também se constrói nesses comportamentos.

Porque produtividade não começa nas estatísticas. Começa na relação de cada cidadão com o tempo, a responsabilidade, o conhecimento e o trabalho.


O Milagre Moçambicano, por isso, não pode ser apenas um projecto do Governo. O Estado cria políticas. As empresas investem. Os bancos financiam. As universidades formam. Mas haverá sempre uma parte decisiva da transformação que pertence ao cidadão.

Talvez seja essa a próxima grande convocatória nacional:

Vamos construir o moçambicano que o Moçambique do futuro exige.

Um cidadão consciente dos seus direitos e responsabilidades. Que não espere tudo do Estado, mas também não aceite um Estado ausente. Que queira prosperar sem precisar que o outro fracasse. Que encontre no conhecimento uma forma de poder, no trabalho uma fonte de dignidade, na competência uma vantagem e na integridade um activo.

Quando milhões de moçambicanos compreenderem que excelência, disciplina, conhecimento, produtividade e mérito também são formas de patriotismo, alguma coisa profunda terá mudado.
E talvez, daqui a algumas décadas, quando procurarmos compreender como começou o Milagre Moçambicano, descubramos que não começou com uma grande inauguração.


Começou quando o país tomou uma decisão extraordinariamente simples:
Antes de construir o futuro, decidiu construir quem iria construí-lo.

E se esse fosse o nosso próximo grande projecto nacional?
O próprio moçambicano.