Excelências,
Distinta família Manhiça (esposa, filhos e demais parentes),
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Reunimo-nos hoje sob o peso de uma dor profunda, de uma tristeza que as palavras dificilmente conseguem traduzir.
A partida de Vasco Manhiça deixa-nos um silêncio pesado na alma, porque nos parece demasiado precoce, demasiado injusta e demasiado difícil de aceitar.
Hoje despedimo-nos de um dos mais notáveis activistas do associativismo empresarial moçambicano, de um homem que compreendeu que uma classe empresarial forte constitui um dos pilares indispensáveis para o desenvolvimento económico, a estabilidade social e a prosperidade de uma nação.
Vasco Manhiça foi Gestor Sénior do Grupo Rovuma Pestana Hotéis.
Presidiu à FEMOTUR.
Exerceu as funções de Vice-Presidente da CTA durante dois mandatos.
Integrou o Conselho de Administração da FUNDEC e participou activamente na sua concepção, crescimento e consolidação.
Mas reduzir Vasco Manhiça aos cargos que ocupou seria uma enorme injustiça.
Na qualidade de Vice-Presidente da CTA que revelou, em toda a sua dimensão, a excepcional qualidade da sua liderança.
A sua visão era moderna, pragmática, agregadora e profundamente patriótica.
Foi um dos principais defensores de uma Confederação mais próxima da sociedade, mais interventiva, mais respeitada e mais influente.
Mas se havia um sector que ocupava um lugar muito especial no seu coração, esse era o turismo.
Via no turismo uma poderosa ferramenta de desenvolvimento económico, de criação de emprego, de valorização da cultura, de inclusão das comunidades e de afirmação internacional de Moçambique.
Quando a pandemia da COVID-19 atingiu duramente o sector, colocando em risco milhares de empresas e postos de trabalho, Vasco recusou resignar-se.
Foi uma voz firme e persistente na defesa de medidas corajosas para reestruturar, revitalizar e dinamizar o turismo nacional.
Simples no trato, era extraordinariamente profundo na forma como pensava o futuro.
Hoje, olhando para esta assembleia, percebemos a dimensão da sua vida.
Vasco tinha o raro dom de fazer cada pessoa sentir-se importante.
Sabia escutar.
Sabia aconselhar.
Sabia encorajar.
Sabia corrigir sem humilhar.
Sabia liderar sem impor.
Essa era a sua escola de liderança.
Uma liderança feita de proximidade.
De confiança.
De respeito.
De generosidade.
Foi um dos homens que Deus colocou nas nossas vidas para nos recordar que a verdadeira grandeza nunca faz ruído.
A verdadeira grandeza manifesta-se na forma como servimos os outros.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Permitam-me uma palavra de natureza mais pessoal.
Ao longo dos últimos anos, tive o privilégio de conhecer Vasco Manhiça para além dos cargos, das reuniões, das agendas e das responsabilidades institucionais.
Conheci o companheiro de caminhada.
Conheci o homem cuja lealdade nunca vacilava, cuja frontalidade nunca ofendia e cuja amizade nunca conheceu interesses.
Na CTA, na FUNDEC e em tantas outras frentes de trabalho, partilhámos sonhos, preocupações, desafios e esperanças.
Pensámos juntos o futuro do associativismo empresarial.
Debatemos soluções para tornar Moçambique mais competitivo, mais inclusivo e mais próspero.
Em muitos momentos difíceis encontrei nele não apenas um Vice-Presidente ou um administrador dedicado.
Encontrei um conselheiro prudente.
Um irmão de causas.
Daqueles homens cuja simples presença transmite tranquilidade.
Marca-me profundamente uma recordação que guardarei para sempre na minha consciência.
Naquela madrugada trágica, sem antes tomar conhecimento da ocorrência do acidente e quando já decorridas cerca de três horas de uma luta desigual pela vida, às quatro horas e quatro minutos da madrugada, o meu telefone registou uma chamada proveniente do Vasco.
Infelizmente, só viria a aperceber-me dessa chamada quando a notícia da sua partida já nos tinha mergulhado numa dor impossível de descrever.
Nunca saberei o que o Vasco pretendia dizer-me.
Essa resposta pertence apenas a Deus.
Mas permitam-me guardar uma convicção profundamente pessoal.
Gosto de acreditar que aquela chamada não era um gesto de desespero.
Era um gesto de esperança.
Era a manifestação de confiança de um homem que, mesmo travando a mais difícil batalha da sua vida, continuava preocupado com as causas que sempre abraçou.
Quero acreditar que, naquele momento derradeiro, Vasco queria apenas dizer-nos que não desistíssemos.
Que continuássemos a acreditar.
Que prosseguíssemos a missão.
Que não deixássemos morrer os sonhos que construímos juntos.
Talvez nunca tenha oportunidade de confirmar esta convicção.
Mas é assim que escolho guardar aquela chamada no meu coração.
Como o último acto de confiança de um amigo.
Como a última lição de coragem de um líder que morreu seis minutos depois de efectuar essa chamada não atendida.
Escolho guardar aquela chamada como a derradeira mensagem de esperança de um homem que viveu sempre ao serviço dos outros.
E é precisamente por isso que hoje, perante a sua memória, perante a sua família e perante todos aqueles que aqui se encontram, queremos assumir um compromisso solene.
Querido amigo Vasco,
Continuaremos a trabalhar com a mesma dedicação, a mesma coragem e o mesmo espírito de missão que sempre nos inspiraste.
Não descansaremos enquanto cada um dos sonhos que ajudaste a semear não encontrar expressão em obras concretas.
Continuaremos a fortalecer a FUNDEC.
Continuaremos a defender o turismo nacional.
Continuaremos a acreditar que o associativismo empresarial pode e deve ser uma força transformadora da sociedade moçambicana.
E porque os homens passam, mas os exemplos devem permanecer vivos, decidimos que a principal sala de reuniões da Fundação para a Competitividade Empresarial, o espaço onde tantas vezes partilhaste ideias, construíste consensos e inspiraste projectos, passará, a partir de hoje, a designar-se “Sala Vasco Manhiça”.
É um gesto simples.
Talvez demasiado pequeno perante a grandeza do teu legado.
Mas é a forma mais sincera que encontrámos para perpetuar a tua presença entre nós.
À tua esposa, companheira de toda uma vida, quero dirigir uma palavra muito especial.
Nenhuma homenagem será suficientemente grande para preencher o vazio que hoje se instala no teu coração.
Partilhaste com o Vasco os sonhos, as renúncias, os sacrifícios e as conquistas de uma vida construída com trabalho, dignidade e amor.
Partilhaste o homem que Moçambique conheceu.
Mas foste tu quem conheceu o homem que regressava a casa depois das longas jornadas de trabalho, das viagens, das negociações e das responsabilidades que abraçava em nome de tantos.
Que Deus te conceda força para atravessar esta hora de dor.
Que encontres conforto na certeza de que o teu esposo viveu uma vida plena de significado e que conquistou o respeito, a admiração e o carinho de um país inteiro.
Aos teus filhos, permitam-me igualmente uma palavra de esperança.
O vosso pai deixa-vos uma herança que não se mede por bens materiais, nem pelos cargos que ocupou.
Deixa-vos algo infinitamente mais valioso.
Deixa-vos um nome honrado.
Uma vida íntegra.
Um exemplo de coragem.
Uma história de trabalho.
Uma herança de valores.
Poucos privilégios são maiores do que poder afirmar, com legítimo orgulho, que se é filho de um homem que viveu para servir.
Um homem que nunca confundiu sucesso com poder.
Nunca confundiu influência com vaidade.
Nunca confundiu liderança com protagonismo.
Serviu sempre com humildade.
Liderou sempre pelo exemplo.
Construiu sempre pensando nas gerações que viriam depois dele.
Que esse legado vos acompanhe todos os dias da vossa vida.
Que ele seja a vossa maior riqueza.
E que vos inspire a prosseguir a obra de um pai que pertence hoje não apenas à sua família, mas também à memória colectiva da nação moçambicana.
Querido amigo Vasco,
Hoje despedimo-nos da tua presença física.
Mas jamais nos despediremos da tua inspiração.
Partes cedo demais.
Mas partes com a serenidade de quem cumpriu a sua missão.
Que o Bom Deus, na Sua infinita misericórdia, te receba no Reino Eterno, recompensando-te por todo o bem que fizeste nesta vida.
Que te sejam reservadas e pronunciadas vigorosamente as palavras da infalível promessa divina destinadas aos servos fiéis:
“Muito bem, servo bom e fiel. Foste fiel no pouco; sobre o muito te colocarei. Entra no gozo do teu Senhor.” (Mateus 25:23).
Obrigado pela tua amizade.
Obrigado pela tua confiança.
Obrigado pelo teu exemplo.
Até sempre, querido amigo Vasco Manhiça.